Precisamos mudar de atitude para termos procedimentos anestésicos mais seguros

Como anestesiologista, passo por uma situação constantemente em meu consultório de Consultas Pré-Anestésicas.
A consulta pré-anestésica é direito do paciente e recomendação expressa da Soc. Bras. de Anestesiologia e Conselho Federal de Medicina. É na consulta pré-anestésica que anestesista e paciente esclarecem dúvidas e detalhes que influenciam diretamente no sucesso e segurança do procedimento a ser realizado.

Não é raro eu perguntar para meus pacientes no momento da consulta pré-anestésica se eles são alérgicos a algum medicamento ou substância e eles responderem assim:
“- Sim! Sou alérgico e já tive até um choque anafilático em uma cirurgia que realizei, só não me lembro a que remédio ou substância.”

Ou, em outros momentos, quando pergunto se tiveram algum problema com a anestesia em procedimentos passados:
“Não sei… Se eu tive ninguém me falou nada.”

Duas situações ruins. No primeiro caso, somos alertados de um potencial problema, mas não temos dados nenhum para evitarmos que o evento se repita. No segundo, uma situação que me deixa além de preocupado, triste. O que faz um paciente pensar que um anestesiologista iria passar uma dificuldade com ele que colocaria sua vida em risco e depois omitiria esse fato dele, ignorando completamente que essa informação é importante para sua vida e deve ser comunicada ao próximo anestesista que for anestesiá-lo?

Precisamos mudar isso. Precisamos urgente mudar a forma como tratamos a gestão dessas informações em anestesiologia e a maneira com que os pacientes nos vêem, deixando de sermos obscuros e temidos para assumirmos nosso papel de guardiões da vida, que é o que realmente somos. Somos aliados de nossos pacientes e precisamos fomentar essa cultura com eles, e não profissionais que os fazem dormir e desaparecem nas sombras assim que seus olhos fecham.

O que me faz reforçar uma pergunta que faço há anos: Por que nossos pacientes não saem do hospital com uma pasta com seu procedimento anestésico descrito nos mínimos detalhes? Não seria uma forma de mostrarmos que nosso trabalho foi cuidar do paciente durante todo o procedimento cirúrgico e ainda deixaríamos com ele – o mais interessado – um documento a ser mostrado no futuro para outros colegas para que tivessem uma referência mais precisa da experiência anestésica daquele paciente.

Enquanto negligenciarmos nossa documentação, estamos sonegando informações a nossos pacientes e colegas; e fomentando a cultura que nos afasta de nossos pacientes, permitindo que toda a sorte de más práticas e desvios sejam creditadas a nós, que remete a uma imagem de um profissional que todos temem e fogem.

Bora mudar isso.