Ausência de fármacos e de materiais para conduta anestésica na retomada.



No início do ano, quando a Pandemia se instalou, o que mais se ouvia era a preocupação de faltar leitos nas UTIs, de faltar materiais e equipamentos como os respiradores mecânicos para suprir os casos graves de pacientes com a Covid-19.

As pessoas concentraram tanto os seus esforços frente a essa situação disseminada pela mídia, que hoje, aproximadamente cinco meses de Pandemia, enfrentamos uma realidade severa: a falta de fármacos para sedar e anestesiar os pacientes.

A conta é simples: sem estes medicamentos, de nada adianta ventiladores mecânicos e leitos de UTI disponíveis e desocupados. Ainda que a falta destes produtos se concentrasse nos leitos das unidades mais complexas já seria uma atrocidade.

Acontece que além disso, os sedativos hoje vistos como raridade, também são utilizados pelos anestesiologistas nas cirurgias, e nem estamos falando sobre os procedimentos eletivos suspensos devido a prioridade Covid-19; mas sim as emergenciais, oncológicas, pediátricas. E por esta falta, as cirurgias não só as agendadas como as essenciais, são canceladas!

Alguns estados tentam driblar esta dificuldade, no entanto lidam com pedidos a distribuidoras negados, prazos de entregas não cumpridos, falta de retorno e de datas de entrega e até mesmo de produção.

O desabastecimento atinge cidades do interior e os sedativos, também utilizados para a intubação começam a causar impactos na assistência e agora não só anestésica, mas global colocando em risco a vida de quem está na UTI. Estes medicamentos, antes destinados preferencialmente aos Centros Cirúrgicos, atualmente passam a ser requisitados no hospital inteiro.

No entanto pela realidade e níveis altos de intubação nas UTIs, os intensivistas têm readaptado protocolos e reativado uso de fármacos mais antigos, que  devido a demanda significativa dos pacientes, passaram a fazer parte da rotina diária.

Diversos fatores impactam as estratégias de retorno para as atividades anestésico-cirúrgicas, e não só a falta de medicações:

  • Aspectos epidemiológicos regionais; 
  • Disposições das Autoridades Sanitárias;
  • Órgãos do setor de saúde;
  • Disponibilidade de recursos humanos e de materiais;
  • Determinação de uma linha de cuidados segura aos pacientes e aos profissionais de saúde;
  • Análise da demanda reprimida e priorização de procedimentos.

Diante deste novo normal, a assistência em saúde sofre uma transformação intensa e mesmo após Pandemia, o medo e a insegurança a uma nova onda com impactos da primeira permanecerá, e por isso a importância no preparo e readaptação dos processos assistenciais para reduzir a ocorrência de erros.

E o enquanto o consumo de sedativos, analgésicos opióides, bloqueadores neuromusculares e drogas vasoativas não forem normalizados (oferta maior que a demanda) não será possível viver com esta “nova normalização” na assistência anestésico-cirúrgica.

Sem contar com o uso das Salas de Recuperação Pós-Anestésica e das salas cirúrgicas como leitos de terapia intensiva, pois sem elas o paciente cirúrgico não terá o mínimo necessário para segurança perioperatória. 

"Segundo informações do canal hospitalar da maior indústria farmacêutica de medicamentos anestésicos da América Latina, esta teve sua previsão de consumo de sete produtos de seu portfólio usados para sedação de pacientes em suporte ventilatório com COVID19 de todo o ano de 2020 esgotada no final de maio, e precisou acelerar a produção para alimentar o mercado"

Outro material impactado pela Pandemia foi o uso dos videolaringoscópios, recomendados ao atendimento dos pacientes para a Pandemia, pois são fundamentais para o acesso da via aérea de pacientes com necessidade de suporte ventilatório.

As máscaras laríngeas, inicialmente foram contra-indicadas por conta da não vedação das vias aéreas em relação ao conteúdo gástrico e risco de dispersão dos aerossóis e aumento das chances de contaminação dos profissionais, entretanto atualmente foi identificado que a dispersão dos aerossóis por elas não aumenta de maneira significativa o risco de propagação do novo coronavírus, passando também a fazerem parte do protocolo de atendimento ao paciente com Covid-19.

Deixando, portanto a assistência anestésica ao segundo plano, já que  quando as indicações para uso das máscaras são seguidas, se tornam dispositivos eficazes para a realização de anestesia geral.

Nota-se que dentre todos os profissionais da saúde, o anestesiologista é aquele que têm grandes chances de se contaminar, tornando um desafio intubar pacientes diagnosticados ou com suspeita da Covid-19.

E assim, identificamos “n” fatores que impactam na assistência anestésica direta e indiretamente. Ou seja, por mais que o profissional não tenha em sua prática pacientes diagnosticados com a SARS-CoV-2, os efeitos na assistência anestésico-cirúrgicas, sendo pela falta de fármacos, de insumos, de materiais, levam a uma readaptação que terá efeito prolongado e por longos anos.

Referências:

HELENA, L. Na atual falta de drogas para anestesia, como ficam então as cirurgias? Disponível: <https://luciahelena.blogosfera.uol.com.br/2020/07/07/na-atual-falta-de-drogas-para-anestesia-como-ficam-entao-as-cirurgias/>.

MENDONÇA, M. Falta de medicamento para sedação em UTIs pode afetar retorno de cirurgias eletivas no ES. Disponível em: <https://g1.globo.com/es/espirito-santo/noticia/2020/06/26/falta-de-medicamento-para-sedacao-em-utis-pode-afetar-retorno-de-cirurgias-eletivas-no-es.ghtml>.

DIHL, B. “Problema número um”, diz secretária de Saúde sobre falta de sedativos em hospitais do RS. Disponível em: <https://gauchazh.clicrbs.com.br/saude/noticia/2020/07/problema-numero-um-diz-secretaria-de-saude-sobre-falta-de-sedativos-em-hospitais-do-rs-ckc68rvg90019013insp258mv.html>.

LUC, M. Hospitais de Curitiba podem ficar sem medicamentos para cirurgias. Disponível em: <https://www.plural.jor.br/noticias/vizinhanca/hospitais-de-curitiba-podem-ficar-sem-medicamentos-para-cirurgias/>.

PEBMED. Pandemia do novo coronavírus e a nova realidade anestésica. Disponível em: <https://pebmed.com.br/pandemia-do-novo-coronavirus-e-a-nova-realidade-anestesic>.


Tatiana Martins

Autor:

Tatiana é enfermeira, Mestre em Enfermagem e Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina (PEN/UFSC). Sua linha de pesquisa está voltada para a área cirúrgica, enfocando os cuidados preventivos às infecções hospitalares, visando a segurança do paciente.

           
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