Informática Médica e Usabilidade dos dados

Atualmente o prontuário eletrônico – PEP é um sistema complexo composto por vários módulos que se interconectam: cadastro do paciente, resultado de exames laboratoriais e de imagem, agendamento, controle de materiais e farmácia. E, é claro, documentação médica (atendimentos, evoluções, prescrições, anotações), entre outros.

O médico geralmente se vê diante de um computador com um sistema que apresenta várias telas e diferentes níveis dentro de um mesmo programa ou entre diferentes programas. Assim torna-se fundamental que a interface do usuário e da visualização dos dados sejam bem planejadas, implementadas e aprimoradas para facilitar a avaliação e registro médico.

Caso contrário, pode não só haver dificuldade de entendimento dos dados do paciente como da integração entre as diferentes informações (clínicas e laboratoriais, por exemplo) para predição e preparo em relação à assistência médica. Isso é descrito como situational awareness (consciência da situação), um conceito bastante usado em aviação e que vem sendo atualmente aplicado à Anestesiologia para descrever sistemas complexos que envolvem diversos médicos e sistemas computacionais, especificamente no cenário de assistência perioperatória.

A Interface gráfica contém diversos elementos com os quais os usuários podem interagir. Uma boa interface gráfica em saúde permite que os médicos rapidamente acessem e processem informações de forma eficiente. Isso é possível levando-se em conta os princípios da interação homem-computador e princípios de design estabelecidos que podem ser adaptados à informática médica.

Usabilidade também é um conceito importante e é a capacidade de um sistema ajudar seus usuários a realizar tarefas de maneira satisfatória, efetiva e eficiente dentro das complexidades do seu fluxo de trabalho. A Associação Americana de Informática Médica (AMIA, American Medical Informática Association) recomenda que os princípios de usabilidade sejam aplicados no desenvolvimento de Prontuários Eletrônicos. Vários destes princípios podem ser aplicados para fichas anestésicas digitais como minimalismo (habilidade de acessar a função principal rapidamente), reversibilidade (desfazer erros) e memória (sistemas intuitivos que minimizam a memorização de tarefas).

Outro princípio que a AMIA recomenda é a flexibilidade que é a capacidade de customização do sistema de acordo com as preferências do usuário, pois pode facilitar o uso. Entretanto, é importante que também sejam seguidas padronizações de acordo com normas (como a cor verde para o Oxigênio), assim deve haver um equilíbrio entre a customização e a padronização.

A informatização da Anestesiologia é um processo inevitável tanto para o apoio da prática anestésica quanto processos administrativos. Por isso os anestesiologistas devem estar cientes do impacto da informática médica no fluxo de trabalho e devem ter papel ativo tanto na escolha e implementação dos sistemas digitais, quanto na melhoria dos sistemas através de sugestões e críticas.

Na transição das fichas anestésicas tradicionais de papel para as digitais, a escolha do sistema deve ser guiada pelos princípios da usabilidade, ou seja, deve-se valorizar sistemas intuitivos, fáceis de usar; além disso as funcionalidades que os sistemas oferecem também devem ser levados em conta. Gestores tem papel fundamental na aquisição de Sistemas de Gerenciamento Informatizados em Anestesiologia e mesmo que a instituição adote um prontuário eletrônico que contenha um módulo de registro anestésico, esses módulos devem ser analisados e caso tenham uma usabilidade ruim, pode ser adquirido um módulo de outra fabricante já que há integração entre esses sistemas (interoperabilidade).

Referência:

Basics of Anesthesia, 7th Edition; Manuel Pardo, Ronald D. Miller

Dr. Marcus Alcadipani

Autor:

Dr. Marcus é Médico Anestesiologista e Analista de Sistemas. Sua linha de atuação atual é usabilidade e apoio cognitivo de aplicativos médicos.