O que 2020 mudou no setor da saúde?



De um lado queimadas e furacões bomba, de outro hospitais lotados e rotinas drasticamente alteradas. E acredite que isso não resume nem metade de tudo que foi 2020. De fato, todos os anos contamos com múltiplas adversidades que não conseguimos mensurar, entretanto, este ano nos impressionou não somente na quantidade, mas também na intensidade destes eventos, e isso que o ano nem mesmo terminou.

E com o setor da saúde não é nada diferente, pelo contrário, foi colocado à prova de diversas formas, em diversos lugares do brasil e do mundo. Neste setor, houve algumas peculiaridades que alteraram horizontalmente as agendas dos médicos e clínicas. Uma das principais foi o aumento de procedimentos para determinado grupo de profissionais, e uma grande queda para outros.

Para ter uma melhor noção da amplitude do cenário vivido em 2020, entrevistamos médicos anestesiologistas que perceberam dada mudança em seus cotidianos. E quando questionamos sobre as mudanças na rotina de trabalho a resposta foi unânime: o volume! Com as cirurgias eletivas suspensas, o número de salas do centro cirúrgico foi reduzido e algumas até mesmo foram fechadas causando uma abrupta queda tanto na quantidade de trabalho, como consequentemente na remuneração dos profissionais.

Podemos ver isto no relato do Dr. Alberto Carísio Nasciutti, médico anestesista, que relatou uma queda de procedimentos para profissionais de anestesiologia: “Então, a grande mudança foi ficar ocioso, coisa que a gente não tinha a muito tempo”. Ele ainda complementa: “Paralelo a isto nós temos uma outra realidade que foi as instituições serem tomadas, vamos dizer assim, pelo volume de atendimentos que precisavam ser feitos. E leitos que eram inicialmente para fazer as cirurgias eletivas ficaram todos para os pacientes da emergência do Covid-19”.

Tal fenômeno fez com que profissionais anestesistas vissem seus calendários, antes lotados de agendamentos, ficando vazios repentinamente. Sobre isto, Nasciutti diz: “Então esse ano, ao mesmo tempo em que ficamos impotentes em ajudar, também enfrentamos uma ociosidade jamais vista”. É importante entender tais acontecimentos, para que além de compreender que não é um caso isolado, mas sim generalizado, também se faça possível tomar atitudes, individuais ou conjuntas, para diminuir danos futuros e para garantir uma boa recuperação 2021.

Uma realidade muito bem observada pelo Dr, Felipe Borges, médico anestesista, foi a segurança do paciente no manuseio de prontuários e fichas em papel. Ele provoca: “quantas horas o Covid sobrevive em uma superfície de papel? Aquilo que estamos fazendo de passar o prontuário de mão em mão, incluindo a ficha anestésica, vai um pouco de encontro às normas disso que estamos falando agora como não encostar nas pessoas, passar álcool nas mãos e nos materiais. Agora, você está num ambiente com Covid-19, faz um registro anestésico no qual coloca um papel dentro do prontuário e o vírus sobrevive horas no papel. Nesse aspecto, estamos sendo contraproducentes”. Porém quando transformamos tudo isso em um arquivo digital, contribuímos, inclusive, para a diminuição da contaminação, fazendo o uso do registro digital.

O Dr Nasciutti ainda reforça que a pandemia fez com que clínicas e negócios médicos ficassem sem compreender as mudanças, e ainda acredita que pela grande velocidade dos acontecimentos, muitos gestores tenham que correr atrás de mudanças que não haviam sido feitas anteriormente, mesmo sendo necessárias. Tal afirmação se torna importante pois firma que já existiam erros e rupturas nos modelos tradicionais, e ainda que os que não conseguiram, por diversos motivos, se estruturar antes de 2020, acabaram por sofrer de forma mais efetiva suas consequências.

A partir de tudo o que vivenciamos e aprendemos em 2020, vemos que as mudanças não serão – nem foram – superficiais. As coisas terão que acontecer de uma maneira diferente. Poderemos retornar as cirurgias eletivas, mas teremos que pensar e planejar este retorno. Será preciso saber se haverá recursos e sustentabilidade. “Se for colocar em ordem todas as cirurgias represadas, 24 horas vão ser pouco!” Esta foi uma frase marcante da conversa com o Dr. Felipe Borges. Afinal, será impossível compensar todas as cirurgias eletivas em um espaço de tempo reduzido. Podemos sofrer com a falta de insumos, prejudicar a segurança do paciente, afinal uma equipe cansada, que já trabalhou de 12 a 14 horas de cirurgia de anestesia, o que equivale a estar dirigindo após ter ingerido de 3 a 4 taças de vinho.

“Será que é isso que nosso paciente vai querer?

Podemos então, de alguma forma, concluir que estamos em um estágio altamente delicado no setor da saúde em diversos âmbitos. Profissionais com problemas em relação a mudança disruptiva de rotina, diversas clínicas e negócios despreparados para aguentar os efeitos de 2020 e em paralelo a isto uma necessidade percebida por este setor de encontrar formas de não apenas passar por este ano e lidar com suas consequências, mas também de se estruturar para que não passem por tais adversidades novamente.

Entretanto, vemos também certos movimentos de gestores, médicos e líderes quanto à busca de tecnologia enquanto solução, algo que nós da Anestech e da Healthchess discutimos e trabalhamos há muito tempo. É interessante perceber que o setor da saúde caminha, mesmo que em alguns casos de forma mais lenta, para uma evolução tecnológica, seja ela na sua forma de gerir, operacionalizar, prevenir e se estruturar. Vemos não somente potencial nisto, como também esperança.

Concorda, discorda, compartilhe sua experiência dos efeitos de 2020 no sua rotina como profissional da saúde em nossas redes sociais.