Retração das cirurgias eletivas relacionados a SARS-CoV-2



Ainda com diversos estudos sobre o tratamento, vacinas e possíveis “curas” para SARS-CoV-2, a maior certeza que temos é da incerteza futura deste novo padrão e “novo normal” e dos impactos da Pandemia no cotidiano do mercado de saúde. No Brasil, por exemplo, tivemos a apresentação de diversos comportamentos e uma evolução dinâmica regional, associadas às abissais diferenças na qualidade dos serviços de saúde pública e privada; com a distribuição de insumos, equipamentos e materiais. Por isso que a crise sanitária não é igual não só no país, mas mundialmente e os impactos da pandemia não inviabilizaram o crescimento e demandas das condições de saúde que não estejam relacionadas ao novo coronavírus.

Sabemos que a não continuidade ou atraso no tratamento de doenças não emergenciais, a longo prazo, irá impactar no aumento da morbimortalidade de pacientes. Nesse cenário o Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC) preocupado com essa situação considera imperativo o planejamento e a organização conjunta da retomada do atendimento. Muitos dos casos que o paciente não corre risco emergencial, estão tendo sua morbidade aumentada documentada em diferentes países, o que levou diferentes associações a definir planos estruturados de retomada, como por exemplo o American College of Surgeons (ACS).

Cabe às Sociedades e Instituições de saúde desenvolver estratégias e buscar ações para a retomada no tratamento e reabilitação destes pacientes, principalmente as pessoas com doenças em que o atraso no tratamento resulta em piores resultados, pois isso não só aumenta as complicações como gera uma sobrecarga ainda maior ao sistema de saúde. E quando mencionamos no atraso do tratamento, estamos falando principalmente dos cancelamentos das cirurgias eletivas, ou seja, os procedimentos que não precisam ser realizados em caráter de urgência/emergência, para um possível preparo de leitos de UTI do país para receber pacientes graves contaminados pelo novo coronavírus.

Por conta da nota emitida pelo Ministério da Saúde (MS), clínicas, hospitais, entidades e até mesmo laboratórios suspenderam toda assistência de caráter eletivo. algumas operadoras e convênios de saúde proibiram todos os atendimentos que não fossem urgentes. A ACS e o CBC também suspenderam visitas hospitalares e até mesmo atividades científicas adotando sistema de reuniões online, respectivamente. O mais preocupante foram as cirurgias oncológicas, quando a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) adiou de maneira intencional as intervenções oncológicas.

Diante de toda esta mudança e cenário de saúde prejudicado pela Pandemia, os sistemas de saúde são desafiados diariamente. E aí fica a dúvida: após a primeira onda dessa pandemia ficar para trás, o volume de pacientes adoecidos com necessidades de tratamento cirúrgico poderá ser crítico, e os hospitais e profissionais de saúde devem estar preparados para atender a essa demanda. Para essa retomada que estamos iniciando, haverá o risco de colapso por conta da sobrecarga do procedimentos atrasados? Como evitar as complicações secundárias? E o objetivo de prevenção em saúde, será prezado? 

Frente a esta complexa realidade e dilema situacional, nosso CEO Diógenes Silva pensando em soluções e entrega na área anestésica, desenvolveu um gráfico para elucidar esse impacto, vamos a ele:

Na linha verde temos o volume e cirurgias eletivas com destaque a algumas datas significativas:

  • 16 de março início da queda nos primeiros casos de contaminados confirmados;
  • 10 de abril retração da assistência com uma queda no mercado de aproximadamente 70%;
  • 21 de maio o início da então retomada.

Outro fato curioso foi o aumento de cirurgias de caráter emergencial de 28% durante este período. E aí cabe uma outra reflexão:

“Os pacientes que aguardavam as cirurgias eletivas, tiveram uma agudização, tendo um agravamento da saúde, tornando-se assim perfil de urgência/emergência?”

Somado a estes dados cabe a nós buscarmos melhores estratégias e ações planejadas para receber essa demanda “desassistida” e buscar subsídio que direcionam para uma melhor assistência cirúrgica.

REFERÊNCIAS

PORTAL PEBMED. Coronavírus e cirurgia: orientação é adiar cirurgias eletivas e restringir visitas. Mar/2020. Disponível em: <https://pebmed.com.br/coronavirus-e-cirurgia-orientacao-e-adiar-cirurgias-eletivas-e-restringir-visitas/>. Acesso em: 17 Jun. 2020.

CBC; SBCO; SBOT; SBN; SBI; AMIB; SBCC; ABIH; SBA. Orientações para o retorno das cirurgias eletivas durante a pandemia de COVID-19. 2020. Disponível em: <https://cbc.org.br/wp-content/uploads/2020/05/PROPOSTA-DE-RETOMADA-DAS-CIRURGIAS-ELETIVAS-30.04.2020-REVISTO-CBCAMIBSBASBOT-ABIH-SBI-E-DEMAIS.pdf>. Acesso em: 18 Jun/ 2020.

EL PAÍS. Crise do coronavírus provoca cancelamento em massa de exames e de cirurgias de doenças graves, como câncer. Mar/2020. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2020-03-27/cancelamento-em-massa-de-exames-e-de-cirurgias-ate-para-cancer-abre-debate-sobre-medida-contra-coronavirus.html>. Acesso em: 18 Jun. 2020.


Tatiana Martins

Autor:

Tatiana é enfermeira, Mestre em Enfermagem e Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina (PEN/UFSC). Sua linha de pesquisa está voltada para a área cirúrgica, enfocando os cuidados preventivos às infecções hospitalares, visando a segurança do paciente.

           
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