Segurança do paciente e o registro de EA’s em uma plataforma digital



Dentre os diversos setores e unidades assistenciais onde a anestesiologia está presente, o setor cirúrgico engloba diversas funções do profissional da saúde relacionadas à experiência cirúrgica durante todo o período perioperatório. O profissional anestesiologista se volta para uma atuação anestésica relacionada à sequência de eventos cirúrgicos objetivando a segurança do paciente. Para tal, faz-se necessário a implementação de registros digitais e de indicadores baseados em evidências científicas internacionais fundamentando a prática assistencial. Neste sentido, a anestesia alia-se ao movimento global pela melhoria de segurança do paciente e da qualidade da assistência à saúde.

Em um estudo realizado no Reino Unido foi identificado que a quantidade de cirurgias de grande porte realizadas anualmente foi de 187 a 281 milhões de procedimentos em 56 países, com uma média de uma cirurgia para cada 25 pessoas. Estas demandas das práticas cirúrgicas, juntamente com a tecnologia e registros digitais, estão cada vez mais aperfeiçoadas no intuito de aumentar as possibilidades de tratamento de casos complexos. Juntamente com estes avanços, o potencial de ocorrência de erros também aumentou, chegando a resultar em dano ao paciente, em incapacidade e até mesmo à morte.

Outra pesquisa, desenvolvida em uma clínica cirúrgica de um hospital da região centro-oeste brasileiro, foi evidenciado que em 615 internações ocorreram incidentes sem danos e 140 Eventos Adversos (EA). Houve o registro de 5.672 incidentes, sendo que 218 foram caracterizados como EA. Os demais não evidenciaram dano, entretanto apontaram necessidade de adequação dos processos de trabalho.

Neste contexto a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou um programa com 106 áreas de atuação, nomeado de Aliança Mundial para a Segurança do Paciente que tem como foco despertar a conscientização e o comprometimento político para aprimorar a segurança na assistência anestésica e cirúrgica, além de apoiar os Estados-Membros no desenvolvimento de políticas públicas e práticas para segurança do paciente. Os EA e os seus erros, há pouco tempo eram rotulados como evitáveis ou inevitáveis e identificados como um ato realizado por um profissional mal capacitado.

 A OMS, juntamente com países membros, verificou que esses danos ocorrem com dezenas de milhares de pessoas todos os anos e em diversos países, sendo que desde o ano de 2000, uma de suas preocupações é a qualidade dos serviços em saúde.

Frente a realidade, novas práticas e o uso de plataformas digitais estão surgindo para enfatizar a necessidade da atualização e do registro 100% digital, pois além de uniformizar a linguagem dos registros, analisa os dados e reduz a ocorrência de incidentes, erros e EA.

Por falar em erros, internacionalmente, temos registros de falhas e erros: Nos Estados Unidos uma nota de reprovação foi dada aos progressos verificados em segurança do paciente em um relatório assinado pela União dos Consumidores (Safe Patient Project). Na Europa, um relatório de 2013 apresentou os resultados de um inquérito realizado em mais de mil hospitais de 30 países europeus sobre a prevalência de infecções relacionadas aos cuidados em saúde e uso de antibioticoterapia.

Dos 80 mil pacientes internados em hospitais, um em cada 18 adquiriu uma infecção associada aos cuidados em saúde. Ainda neste documento, foi avaliado que as ações conduzentes à segurança do paciente não foram suficientes para evitar o alto índice de lesões e mortes evitáveis nas organizações de saúde europeias.

O resultado da insegurança do paciente vai além dos óbitos e inclui morbidade e impactos como a perda da dignidade, do respeito e do sofrimento psíquico. A ocorrência de EA afeta de 4% a 16% de pacientes hospitalizados em pacientes desenvolvidos. Na América do Norte, um em cada 10 pacientes sofrem EA. Já no Brasil, as causas mais frequentes de EA são:

  • Queda
  • Administração incorreta de fármacos
  • Falhas na identificação do paciente
  • Erros em procedimentos cirúrgicos
  • Infecções
  • Uso inadequado de dispositivos e de equipamentos médicos

Contando essa realidade nacional e internacional de EA, temos dados registrados por profissionais anestesiologistas que realizam o registro através de uma plataforma digital nas Instituições em que atuam, de norte a sul do país. O uso desta facilita o registro e mais ainda, reduz a taxa, tendo em vista que por permitir uma tabulação e padronização do registro, mantém o profissional atento à intervenção cirúrgica com o olhar ao paciente e todos os parâmetros necessários para uma avaliação clínica minuciosa.

Além disso, esta plataforma digital permite uma rastreabilidade dos dados e análise dos indicadores para que esta redução de EA possa chegar a zero, pois o intuito na área da saúde não é fazer com que a prevalência de EA seja baixa, e sim, nula, já que estamos lidando com incidentes que levam a algum dano ao paciente. Faz-se evidenciar que nem todo dano é gerado por alguma falha ou erro.

Além disso, vale ressaltar que a plataforma digital proporciona a previsibilidade de possíveis ocorrências baseados em dados anteriores, em que o profissional anestesiologista poderá evitar frente aos procedimentos realizados, ao longo de sua prática anestésica, prevenindo assim danos e fomentando ainda mais, a segurança do paciente.

Para tanto, temos o seguinte cenário de 2019 com o quantitativo de EA registrados por uma plataforma digital na área anestésica:

A notificação dos eventos é relevante para a segurança do paciente, pois é uma maneira dos profissionais relatarem os incidentes e/ou EA em saúde. A análise das notificações permite a aprendizagem organizacional, possibilitando que as causas sejam identificadas e evitadas, a partir da revisão e melhoria dos processos assistenciais, especificamente na prática anestésica.

Portanto, registre, valide, notifique! Você é mais do que responsável por reduzir a zero a nossa taxa de EA.

Quer saber mais sobre estes dados estruturados, detalhados e registrados pela plataforma digital?

Acesse o link:

Referências:

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Boletim Informativo- segurança do paciente e qualidade em serviços de saúde. Brasília, jan-jul de 2011. Disponível em: http://portal.anvisa.gov.br/documents/33852/271855/Boletim+Segurança+do+
Paciente+e+Qualidade+em+Serviços+de+Saúde+nº+15/bb637392-4973-4e7f-8907-a7b3af1e297b

Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo para cirurgia segura. Brasília: ANVISA; Fiocruz, 2013. Disponível em: http://www.hospitalsantalucinda.com.br/downloads/protocolo_cirurgia_segura.pdf

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HARADA, M. J. C. S.; PETERLINI, M. A. S.; PEREIRA, S. R. O erro humano e a segurança do paciente. 2. ed. São Paulo: Atheneu, 2006. 217p.

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SOUSA, P. et al. Segurança do doente: eventos adversos em hospitais portugueses: estudo piloto de incidência, impacte e evitabilidade. 1. ed. Lisboa: Personal Vision, 2011. 36p. 


Tatiana Martins

Autor:

Tatiana é enfermeira, Mestre em Enfermagem e Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina (PEN/UFSC). Sua linha de pesquisa está voltada para a área cirúrgica, enfocando os cuidados preventivos às infecções hospitalares, visando a segurança do paciente.

           
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