Setembro Amarelo: Suicídio na Anestesiologia

Desde 2014, o Conselho Federal de Medicina (CFM) juntamente com a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) lideram nacionalmente a campanha do Setembro Amarelo em prevenção ao suicídio. Cerca de 12 mil episódios de suicídios ocorrem anualmente no país e mais de um milhão no mundo. Aproximadamente 96.8% destes casos estão relacionados aos transtornos mentais. Sendo considerado um ato complexo e subjetivo, o suicídio inclui fatores relacionados a questões orgânicas, psicossociais e filosóficas. 

Muitas vezes focamos esse olhar aos pacientes vulneráveis a condições que possam levar a essa tragédia, mas não podemos esquecer que os profissionais da saúde também são pessoas e estão susceptíveis a esse efeito. A categoria médica apresenta uma taxa de mortalidade menor que a população geral para todas as causas, exceto no suicídio. E acreditem: ser profissional da saúde aumenta sim o risco de suicídio. Pensando nos anestesiologistas, uma das razões destes índices serem maiores nestes profissionais é devido o trabalho ser altamente estressante, isso já no início da carreira profissional. Estudos científicos revelam que entre os anos de 2017 e 2018, em uma única Instituição de ensino de Medicina, foi registrado o suicídio de cinco estudantes.

Gráfico 1: Número de suicídios por especialidade médica, EUA, 2018.

Fonte: Pamela Wible MD, 2018. Disponível em: https://www.idealmedicalcare.org/why-happy-doctors-die-by-suicide/

Gráfico 2: Número de profissionais médicos ativos por especialidade, EUA, 2018.

Fonte: Pamela Wible MD, 2018. Disponível em: https://www.idealmedicalcare.org/why-happy-doctors-die-by-suicide/

Segundo uma pesquisa publicada no Medscape também no ano de 2018, 65% de um total de 661 médicos revelaram conhecer outro médico que tentou ou tirou a própria vida. Muitos dos entrevistados respondiam com contração nas sobrancelhas, típico de quem ouve uma pergunta um tanto quanto evidente para profissão. Mas afinal, quais as causas que podem levar os médicos ao suicídio?

Além dos transtornos psiquiátricos, sobrecarga no trabalho, privação do sono, existem outros fatores específicos no caso do suicídio cometido pelos profissionais anestesiologistas: dependência química de anestésicos e opiáceos são fortes indicativos para se levar a ele. O uso abusivo pode levar a morte acidental por overdose, além do mais a maioria dos opiáceos causa tolerância, e assim o uso cada vez mais de doses aumentadas. Mesmo tendo total conhecimento sobre o efeito do medicamento e seus riscos, os anestesiologistas não eliminam o risco de perder o controle sobre o ato do uso indevido de opióides. Fazendo uma analogia, é como um barman dependente de álcool com fácil acesso a este.

O emprego de anestésicos responsáveis em manter a vida “estável” do paciente em uma cirurgia de tórax aberta enquanto os cirurgiões lhe operam o coração, e fazer com que o paciente acorde com uma ilusão garantida de que não haverá intercorrências é papel do anestesiologista. Tarefa difícil, certo?

Há também as situações de emergência em que o anestesiologista é o profissional mais preparado para atuar, e aí quando acontece um problema, os demais profissionais querem respaldo deste profissional e que ele faça o manejo do evento. Tarefa e responsabilidade mais difíceis ainda, não é verdade?

Frente a isso e todos os demais fatores, cresce as chances destes profissionais se sentirem esgotados e com emocional prejudicado cometerem a loucura e a fuga no suicídio.

“Desde a formação, o médico em geral, especificamente o anestesiologista é convencido de que não pode falhar” – Já dizia o presidente da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) Dr Sergio Logar em entrevista no ano de 2018.

Não esqueçamos da Síndrome de Burnout causada pela resposta ao estresse da cronicidade laboral crônica acionada pela exaustão emocional, baixa produção no trabalho dentre outros. Na anestesiologia, características próprias contribuem de maneira diferenciada para a ocorrência dessa síndrome como a proximidade do sofrimento e da morte juntamente com estresse físico do ambiente cirúrgico.

Para o nosso CEO Dr. Diogenes uma das ferramentas e soluções para esta problemática envolve a tecnologia: 

“Uma especialidade de resultados imediatos, sem margem de erro, atuando em momentos críticos e cheia de peculiaridades como a anestesiologia precisa munir-se de tecnologia para prover mais segurança, equilíbrio, assertividade e proteção a todos os envolvidos.”


Tatiana Martins

Autor:

Tatiana é enfermeira, Mestre em Enfermagem e Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina (PEN/UFSC). Sua linha de pesquisa está voltada para a área cirúrgica, enfocando os cuidados preventivos às infecções hospitalares, visando a segurança do paciente.

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