Anestesiologia com apoio cognitivo, mais um robô?

Cena do filme Eu, Robô - 2004

O avanço da Inteligência Artificial (IA) no âmbito da saúde caminha a passos largos e agora está revolucionando os exames de imagens em hospitais pelo país.

Uma empresa emite laudos à distância, os médicos radiologistas contam com o auxílio de uma tecnologia trazida de Israel.

Agora, os médicos radiologistas têm a ajuda do computador. A máquina indica as áreas potencialmente críticas, então elas são marcadas por setinhas que garantem agilidade no diagnóstico, com um índice de acerto de até 90%.

O que o programa encontra precisa ser confirmado por um profissional médico e como são dezenas de exames na fila, o algoritmo emite um alerta de prioridade para aqueles em que uma potencial lesão foi detectada. Assim, o tempo de análise dos mais urgentes cai de quatro horas para menos de 30 minutos.

Sistema de diagnóstico em funcionamento. Fonte: G1 Globo.

O apoio de inteligência artificial aumenta a precisão do profissional médico e pode significar a diferença entre a vida e a morte.

Trazendo para realidade do profissional anestesiologista, temos alguns fatores em comum com os médicos radiologistas, a principal é que são especialidades de resultados imediatos, ou seja, o especialista deve analisar uma grande quantidade de informações em um curto período de tempo para tomada de decisão e desfecho médico, com isso, proporciona abertura de novas tecnologias de inteligência artificial para auxiliar em ações mais assertivas em cenário que exige velocidade, análise e precisão.

Atualmente existem diversos estudos e iniciativas de inteligência tecnológica em anestesiologia pelo mundo. A maioria são espécies de humanóides (robôs) que simulam a atuação de um anestesiologista, analisam informações biológicas e farmacológicas e adaptam constantemente o próprio comportamento para executar um procedimento anestésico ou sedação.

A vida útil dos projetos de anestesiologista automatizado (robô), não obteve sucesso nos últimos anos, avaliamos o caso da máquina “Sedasys” da empresa Johnson & Johnson obteve a aprovação da Food and Drug Administration (FDA) dos EUA em 2013, foi utilizada por quatro hospitais em 2015.  A máquina, que administrava medicamentos enquanto monitorava os sinais vitais do paciente, foi inicialmente considerada para ser usada em diversas cirurgias.  A Sociedade Americana dos Anestesistas contestou dizendo que a anestesia é um dos aspectos de maior risco durante uma cirurgia e sua segurança não foi totalmente comprovada. A máquina saiu do mercado em março de 2016 devido às baixas vendas.

Máquina Sedasys usada em hospital. Fonte: Washington Post.

A anestesiologia é conhecida como uma especialidade com visão global da medicina e sem margem de erros. Sua principal função é proporcionar ausência ou alívio da dor e outras sensações ao paciente que necessita realizar procedimentos médicos, como cirurgias ou exames diagnósticos, identificando e tratando eventuais alterações das funções vitais.

O Dr. James Philip, diretor de bioengenharia clínica do departamento de anestesiologia e professor de medicina da escola de Harvard no Hospital de Brigham & Women, disse no Fórum Mundial de Inovação Médica que ocorreu em abril de 2018, que há uma necessidade de mais dados e variáveis. Atualmente, a IA relacionada à anestesiologia pode se transformar completamente nos próximos anos, como na mudança do fluxo de trabalho e de fármacos mais eficazes.

O caminho mais realista e eficaz para o aprendizado de IA e de máquina no cenário da saúde, em especial na anestesiologia, é a criação de aplicações de apoio cognitivo para os especialistas. Este, capaz de processar grandes quantidades de dados, aprender a linguagem natural e reconhecer padrões, criando uma espécie de assistente virtual em tempo real e de fácil acesso móvel, exercendo por exemplo, a melhoria da assertividade de técnicas anestésicas, previsibilidade de eventos adversos, administração correta de fármacos, e principalmente a complementação das deficiências técnicas. O que deixa o profissional mais seguro e descansado sem um possível quadro de burnout, com mais tempo para desempenhar sua habilidades humanas como liderança, resolução de conflitos e empatia que são fundamentais na assistência à saúde.

Imaginemos um colega virtual, sem rosto ou forma, que sabe muito e que está sempre disponível em todas as salas de cirurgia ajudando o anestesiologista da mesma forma que uma transmissão automática ajuda as pessoas ao dirigir.

Além disso, essa tecnologia poderia ser facilmente incorporada em programas modernos de ensino, como centros de simulação e plataformas de aprendizado para residência médica.

De fato, tecnologias inteligentes já são realidade em diversas especialidades médicas e serviços de apoio, os principais desafios da anestesiologia em atingir uma maturidade no processo tecnológico, são principalmente, a disponibilidade dos dados digitais e o engajamento das comunidades, em prol da interação para a melhoria da qualidade das informações e evolução de ferramentas de apoio.

Ainda é um desafio de destreza para a IA fazer com que os pacientes “durmam” de maneira segura, mas talvez ela já possa ajudar os anestesiologistas a fazer com que o paciente “durma" melhor.

 

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Referências

AI Med.  The Return of the automated anesthesiologist. 2018. Disponível em: <https://ai-med.io/automated-anesthesiologist-medicine-ai/>.

Mass device.  Johnson & Johnson bails on Sedasys anesthesia device. 2016. Disponível em: <https://www.massdevice.com/johnson-johnson-bails-sedasys-automated-anesthesia-device/>.

Gizmodo. Robô anestesista perde emprego por causa de profissionais humanos. 2016. Disponível em: <https://gizmodo.uol.com.br/robo-anestesista/>.

G1 Globo. Inteligência artificial revoluciona exames de imagens em hospitais de SP e Goiás. 2019. Disponível em: <https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2019/06/15/inteligencia-artificial-revoluciona-exames-de-imagens-em-hospitais-de-sp-e-goias.ghtml>.

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Autor:

Diogenes é anestesiologista, sócio-fundador e CEO da Anestech Innovation Rising, startup ganhadora de vários prêmios nacionais, investida pelo Laboratório de Inovação do Hospital Albert Einstein - Eretz.bio - e incubada no MIDI Tecnológico ACATE em Florianópolis.