Hipertermia Maligna: Um Relato Ilustrado de Um Caso Real

A cirurgia está ocorrendo sem nenhuma intercorrência, mas sem aviso prévio o monitor multiprâmetros dispara um alarme e começa a dar sinais de elevação da concentração final expiratória de gás carbônico (EtCO2), da temperatura do paciente e dos batimentos cardíacos. Os olhos do anestesista se focam nos dados fornecidos, tentando em um raciocínio rápido e lógico identificar o fenômeno.  Contudo, o quão rápido deve ser esse raciocínio para identificar uma reação que ocorre em 1 a cada 100.000 pacientes adultos submetidos a anestesia inalatória?

O caso descrito nesse post é real, e ocorreu com a colega anestesiologista Joana Fiorentin no Hospital Universitário Cajuru, em Curitiba (PR) em 2015.

A morte de um indivíduo jovem, ativo e saudável durante uma cirurgia de rotina é um evento emocionalmente devastador, tanto para a equipe médica quanto para família do paciente. Quando isso ocorre, diversas dúvidas surgem a respeito do procedimento. A equipe médica deixou passar alguma coisa ou podem ter cometido algum erro durante a cirurgia? Havia algo que eles poderiam ter feito para evitar a morte? O que ocorreu e por que isso aconteceu é sempre uma das questões a ser respondida, e a resposta pode estar na síndrome da Hipertermia Maligna (HM).

A Hipertermia Maligna (HM) é uma reação rara a agentes anestésicos comumente usados, como relaxantes musculares despolarizantes e anestésicos inalatórios. A HM é uma potencial desordem farmacogenética que afeta indivíduos geneticamente predispostos. Ao contrário de muitos outros distúrbios hereditários (genéticos), este raramente produz sintomas ou sinais até que o paciente  tenha contato com agentes anestésicos. A apresentação clínica varia de acordo com as drogas usadas e a suscetibilidade do paciente.

O diagnóstico se faz na presença de um estado de hipermetabolismo, no qual o paciente pode apresentar rigidez mandibular (trismo), hipertermia, taquicardia, hipercapnia (detectado pelo aumento de CO2 expirado final), acidose, taquipneia e choque; minutos ou horas após a anestesia inalatória ser iniciada. A rápida identificação é fundamental para o manejo do quadro que pode ser revertido mais comumente com administração de Dantrolene. 

Particularmente no sul do Brasil, principalmente nos estados de Santa Catarina e Paraná a ocorrência de casos de HM é duas vezes mais frequentes do que na população mundial (1:50.000 anestesias). O motivo disso é curiosamente devido a casamentos co-sanguíneos acontecidos na época da colonização dessas regiões por colonizadores de origem européia. Com um direito a um pequeno lote de terra (um quarto de légua em quadro), famílias de colonos optavam por casamentos entre primos ou outros parentes próximos para não terem que dividir ou ceder a título de dote a terra que conseguiram para iniciar a vida no Mundo Novo.

Esse fato histórico fez com que todo o anestesista que trabalhe em Santa Catarina tenha à mão uma lista de sobrenomes com risco de histórico de HM.

Quer entender melhor como manejar um quadro de Hipertermia Maligna com um caso real, veja as imagens do caso ocorrido e documentado pela colega Dra. Joana Florentin:

Baixe o PDF ilustrado do relato de caso completo ↓↓↓

O material desse post foi gentilmente cedido pela autora, Dra. Joana Fiorentin.

Referências

BRADY, Joanne e; SUN, Lena S; ROSENBERG, Henry. Prevalence of Malignant Hyperthermia Due to Anesthesia in New York State, 2001–2005. Anesthesia & Analgesi. New York, p. 1162-1166. out. 2009. Disponível em: <https://journals.lww.com/anesthesia-analgesia/fulltext/2009/10000/Prevalence_of_Malignant_Hyperthermia_Due_to.27.aspx>. Acesso em: 11 abr. 2019.

CORREIA, Ana Carolina de Carvalho; SILVA, Polyana Cristina Barros; SILVA, Bagnólia Araújo da. Hipertermia maligna: aspectos moleculares e clínicos. Revista Brasileira de Anestesiologia, [s.l.], v. 62, n. 6, p.828-837, dez. 2012. Elsevier BV. http://dx.doi.org/10.1590/s0034-70942012000600007.

LITMAN, Ronald S. Malignant hyperthermia: Clinical diagnosis and management of acute crisis. UpToDate 2019. Disponível em: <https://www.uptodate.com/contents/malignant-hyperthermia-clinical-diagnosis-and-management-of-acute-crisis>. Acesso em: 11 abr. 2019.

Colaborou: Magno Cruz, acadêmico de medicina trainee na Anestech Innovation Rising.


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Autor:

Diogenes é anestesiologista, sócio-fundador e CEO da Anestech Innovation Rising, startup ganhadora de vários prêmios nacionais, investida pelo Laboratório de Inovação do Hospital Albert Einstein - Eretz.bio - e incubada no MIDI Tecnológico ACATE em Florianópolis.

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