Tablets como Prontuário Eletrônico

O uso de dispositivos móveis não é novo na área da saúde, basta recordar que há não muito tempo atrás, na era “pré-celular”, buscava-se a comunicação rápida com profissionais da saúde através do uso de pagers. Além disso, a necessidade de registrar e acessar informações onde quer que fosse, fez a prancheta tornar-se um item icônico da área médica, assim como o estetoscópio e o jaleco.

Dispositivos móveis digitais não só suprem essas necessidades (comunicação e acesso a informações) como muitas outras, razão pela qual vem revolucionando a prática dos profissionais da área da saúde, mas ainda há muito potencial a ser explorado.

Apesar desses recursos animadores, ainda estamos literalmente “estacionados” (no tempo e no espaço) em computadores convencionais (desktops), apesar do avanço dos tablets em termos de capacidade de processamento, memória, bateria e custos.

"A maioria dos médicos brasileiros ainda é refém de sistemas com péssima usabilidade e computadores obsoletos que, muitas vezes, mais atrapalham do que ajudam.

Alguns estudos já vem comprovando que o uso de tablets na área de saúde é vantajoso em relação a desktops, por exemplo, aumentando o tempo do médico na ‘beira do leito’, provavelmente por reduzir a carga burocrática (“canetação”) e idas e vindas entre o leito e o computador ‘de mesa’ onde foram instalados prontuários eletrônicos em boa parte dos hospitais brasileiros.

Acesso fácil aos dados do paciente podem ser cruciais na tomada de decisões médicas e Prontuários Eletrônicos Móveis podem otimizar esse acesso. 

Registro Anestésico Digital, AxReg, sendo utilizado dentro do centro cirúrgico.

Mas por que há dificuldade de implementação do uso de Tablets como prontuários eletrônicos no Brasil? As razões são várias.

Primeiro, sempre há uma resistência em mudar sistemas. Há a preocupação da transição, da perda de dados, de mudar a infra-estrutura, treinar os profissionais e, principalmente, adotar uma nova cultura. 

Além disso, ainda há preocupações em relação ao hardware: memória, capacidade de processamento, tempo de bateria, tamanho de tela e resolução. Nos últimos anos os tablets melhoraram muito em desempenho, comparável a laptops que são mais pesados e mais difíceis de manusear à beira do leito. Os tablets atuais tem grande capacidade de memória, telas maiores (melhor experiência com conteúdos gráficos) e permitem melhor mobilidade e desinfecção (limpeza mais fácil e eficiente). Outro aspecto fundamental é que os tablets e seus aplicativos estão com usabilidades cada vez melhores, num público que já está acostumado à tela de toque (pelo uso de smartphones).

O custo ainda é visto como um grande obstáculo, talvez o maior, à implementação de Tablets em hospitais brasileiros. É preciso ter visão de longo prazo e analisar o retorno do investimento (“ROI, Return on Investment”). A melhora da qualidade do serviço prestado ao paciente, inevitavelmente traz economias ao Hospital, como diminuição da morbi-mortalidade, diminuição do tempo de internação, entre outros. 

Como médico e analista de sistemas espero que num futuro não muito distante os tablets sejam amplamente implementados e se tornem um item tão presente na prática clínica diária quanto o estetoscópio.

Referências:

Fleischmann, R., Duhm, J., Hupperts, H. et al. J Neurol (2015) 262: 532. Tablet computers with mobile electronic medical records enhance clinical routine and promote bedside time: a controlled prospective crossover study.


Dr. Marcus Alcadipani

Autor:

Dr. Marcus é Médico Anestesiologista e Analista de Sistemas. Sua linha de atuação atual é usabilidade e apoio cognitivo de aplicativos médicos.

Posts relacionados

30/08/2019

Inteligência Artificial e o Significado para Gestão em Saúde

09/08/2019

Hospital Digital: A importância da Gestão Hospitalar.

24/05/2019

O Processo de Cuidar no Século XXI

14/04/2019

Hipertermia Maligna: Um Relato Ilustrado de Um Caso Real